Parque Escultórico Linear

Parque Escultórico Linear
7 de junho de 2019 Rafael Kamada

Marcos Amaro
São Paulo, SP, 1984

O artista Marcos Amaro aborda a estética do conflito em suas esculturas. Promove o entrave entre os valores concretos de forma e movimento e os valores intelectivos e afetivos. Trabalha, dessa forma, a ressignificação de partes sucateadas provenientes de desmanches aeronáuticos em objetos artísticos, cuja interpretação passa então a ser conduzida de acordo com os intermináveis repertórios anônimos dos apreciadores da arte.

Suas obras escultóricas provocam o desmonte do olhar instituído, daquele cheio de teorias e retóricas, formado a partir de referências históricas, para dar lugar aos nossos processos sensoriais, instantaneamente excitados pela brutalidade dos materiais em contraposição à leveza proposta pela afetividade inerente de cada peça utilizada na construção das obras. Essa afetividade quase doce é traduzida tanto por meio de sua própria memória como descendente de aviador, quanto através da tridimensionalidade, cor e movimento próprios desses objetos. Essas combinações, que inicialmente parecem aleatórias, acabam por sugerir uma harmonia ao olhar de quem ousa transpor o estranhamento do primeiro momento e insiste por mais do que uns simples minutos de contemplação. O artista combina objetos diversos descartados, como partes de aviões e carros, pneus velhos, lonas, plásticos, madeira, etc, numa experimentação peculiar do fazer artístico.

Num movimento coerente dentro de sua própria narrativa, mais recentemente, Marcos Amaro resgatou o bidimensional em sua obra. Ao longo da carreira, o artista tem produzido trabalhos que invocam a memória, tanto através da pintura e do desenho, quanto por meio da assemblage, ao reunir objetos em superfícies diversas. Todos histórias suas, mas agora com materiais mais fluidos, montantes de substâncias agora solidificadas na obra, óleos, graxas e betumes, que rementem aos materiais com os quais mais trabalha, as partes remanescentes de aviões. Fragmentos de memória, o precário, o estado bruto.

 

Fechado para balanço, 2013
Pintura sobre madeira, parafusos, portas antigas e fragmento de caminhão
250 x 430 x 90 cm

Passa, lava e não entrega, 2013
Peça automotiva, placa de metal sobre placa de madeira revestida com tecido
100 x 100 x 20 cm

Divã Espacial, 2015
Assentos de avião, plástico, alumínio e rádio
163 x 280 x 62 cm

Mustang, 2013
Fuselagem aeronáutica, lona e pneu
263 x 329 x 41 cm

Reflexões Distantes Sobre Um Passado Próximo, 2013
Colchão, recipiente de plástico e fragmentos de fusca sobre suporte de Madeira
200 x 190 x 60 cm

The Sitting is Taken, 2016
Escultura em mesa e cadeira de madeira com duas caixas-pretas
171 x 104 x 126 cm


Caíto
Luiz Carlos Martinho da Silva – São Paulo, 1952

Caíto, como ficou mais conhecido, formou-se em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Brás Cubas, em 1972, na cidade de Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Passou a atuar como artista já na década de 1970. Desde então, participou de eventos importantes no Brasil, como Bienal Internacional de São Paulo (1989 e 1991) e Panorama da Arte Atual Brasileira (1985 e 1988), além de salões de arte espalhados pelo país. A partir de 1980, procurou investir numa pesquisa voltada para a qualidade formal em esculturas, desenvolvendo objetos por meio da mistura não convencional de materiais diversos, como o couro, plástico e o metal, especialmente o bronze.

Ao longo de sua carreira, desenvolveu obras de grande dimensão, próprias para o espaço público, trabalhando ainda a ambiguidade da combinação de materiais aparentemente incompatíveis. Realizou obras onde o orgânico ganhava continuidade por meio do sintético de maneira a atribuir movimento às figuras inanimadas. Seus formatos costumavam lembrar não apenas animais como também elementos fálicos e eróticos. Com o tempo, suas esculturas públicas ganharam mais e mais interação com o entorno através de seus formatos e materiais empregados.

Conceito primordial em seu trabalho, a ideia de ritmo e movimento (ou o estático) também pode ser identificada em seu trabalho a partir do jogo dos opostos, como o cheio e o vazio, começo e fim, dentro e fora, etc. Atualmente, algumas de seus esculturas mais emblemáticas podem ser vistas pela cidade de São Paulo, como no Parque da Luz e na Estação Sumaré do metrô. Mais recentemente, apresentou exposição no Museu Afro, em São Paulo, onde as esculturas apresentaram o resultado do acúmulo de materiais descartados.

 

ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa19398/caito>. Acesso em: 03 de Jun. 2019.

Caíto. Website oficial dos Monumentos de São Paulo. Disponível em: http://www.monumentos.art.br/monumento/sem_titulo_caito. Acesso em 03 Jun 2019.

Caíto. Website oficial do Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM. Acervo. Disponível em: https://mam.org.br/acervo/cm2006-256-caito/. Acesso em 03 Jun 2019.

SACRAMENTO, Enoch. Arte no Metrô. A&a Comunicação. São Paulo, 2012.

Parque Escultórico de São Sebastião. Website oficial Fundação Gilberto Salvador. Disponível em: https://fgs.org.br/parque-escultorico-de-sao-sebastiao/. Acesso em 03 Jun 2019.


Marcello Nitsche
São Paulo, 1942 – 2017

Filho de pai e mãe pintores alemães, Marcello Nitsche nasceu em São Paulo, cidade que lhe serviu de inspiração e onde viveu até o final da vida. Formou-se em Desenho na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP-SP), em 1969, período em que se concentrava em gravura e pintura, passando em seguida para uma arte mais gráfica, com linguagem inspirada na Arte Pop, como o universo dos quadrinhos.

A partir do final dos anos de 1960, o artista passou a investir na produção audiovisual (Super-8) e performance. Em 1978, realizou a primeira de uma série de esculturas para espaços públicos, pelas quais ficou conhecido. Além de ter sido um dos artistas mais atuantes contra o Regime da Ditadura Militar no Brasil e o imperialismo norte-americano, Marcello Nitsche também foi protagonista no ensino das artes para crianças em situação de rua e um dos idealizadores para a formalização do ensino de artes nas escolas. O artista participou ainda de atividades do Grupo Rex, juntamente com Geraldo de Barros e Carlos Fajardo, nos anos de 1960, e figurou entre os artistas que se apresentaram na exposição “Nova Objetividade Brasileira”, no MAM-RJ, em 1967. , juntamente com Hélio Oiticica e Lygia Clark, dentre outros.

Adepto a experimentação dos diversos suportes na produção de seus trabalhos, Marcello Nitsche tinha o gestual da pintura um dos seus principais objetos de pesquisa, replicando as pinceladas e explorando suas possibilidades, principalmente através do grafismo. Tomadas como referência da identidade visual da Campanha das Diretas Já, no final da década de 1980, essas pinceladas foram mais tarde traduzidas para a tridimensionalidade, dando início a uma série de esculturas de grande porte em ferro a partir dos anos 2000. Durante toda a sua carreira, manteve um forte interesse pelos signos da modernidade e paisagem urbana, que se encontrava em crescente ebulição na São Paulo das décadas de 1960, 70 e 80.

 

NOVA Objetividade Brasileira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento81894/nova-objetividade-brasileira-1967-rio-de-janeiro-rj>. Acesso em: 27 de Mai. 2019.

BELLUZZO, Ana Maria de Moraes. Marcello Nitsche: texto curatorial da exposição Lig Des. Sesc Pompeia. São Paulo, 2003.

SALVADOR, Gilberto. Site oficial da Fundação Gilberto Salvador. Disponível em: http://fgs.org.br/. Acesso em 27 de Mai 2019.

AMARAL, Aracy. Olhando os fragiles de Nitsche. In: ______. Arte e meio artístico: entre a feijoada e o x-burguer: 1961-1981. São Paulo: Nobel, 1983

SCHENBERG, Mario. Pensando a arte. São Paulo: Nova Stella, 1988.

MARCELLO Nitsche. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10447/marcello-nitsche>. Acesso em: 27 de Mai. 2019.

MARTI, Silas. Mestre da arte pop nacional, Marcello Nitsche more aos 74 em São Paulo. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/03/1865870-mestre-da-arte-pop-nacional-marcello-nitsche-morre-aos-74-em-sao-paulo.shtml. Acesso em 27

NITSCHE, Marcello. Website official Tate Modern. Disponível em https://www.tate.org.uk/whats-on/tate-modern/exhibition/ey-exhibition-world-goes-pop/artist-biography/marcello-nitsche. Acesso em: 27 Mai 2019.