Tunga
31 de janeiro de 2019 Rafael Kamada

Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão

Palmares, PE, 1952 – Rio de Janeiro, RJ, 2016.

O imaginário barroco de Tunga explorava outras áreas do conhecimento, estabelecendo ligações com literatura, psicanálise, teatro, filosofia, biologia, exatas, etc, para metaforizar as experiências da alma humana. Em suas esculturas e instalações, ele combinava objetos ordinários que causam estranhamento ao espectador num primeiro momento. É necessário exercitar o descolamento desses objetos de seus papeis primários para acessar a capacidade imaginativa desejada pelo artista.

No começo da carreira, início dos anos de 1970, Tunga trabalhava temas ousados em seus desenhos e esculturas. A partir de meados dessa década, o artista deu início às chamadas “Instaurações”, onde ativava os trabalhos por meio de performances, misturando forma e matéria para criticar o supérfluo na arte, que nas suas mãos funcionava como agente transformador e engajado.

A FMA abriga três trabalhos de Tunga. Na sala 3, uma grande instalação apodera-se do ambiente. Trata-se de “Vers la voie humide 2” (2013), cuja tradução literal para o português, “Para o caminho molhado”, estabelece uma relação direta com o que vemos: um portal rodeado por um jardim, ambos formados por combinações de minerais diversos. Elementos recorrentes em suas obras, os minerais (ferro, cristais, imãs, etc) naturalmente representam fontes de energia natural. Quando justapostos, não apenas têm seus significados potencializados, como também ressignificados, posto que interagem energeticamente entre si, como se esse portal nos levasse ao jardim imaginário das transformações. É a força magnética dos imãs conjurando as propriedades naturais de cura das pedras de quartzo.

Outras duas obras compõem a coleção: “Sem título” (1981) e “Amber Chamber” (2006). Cada objeto utilizado contribui com a própria história e repertório particulares. O corpo e a mente, bem como suas particularidades e problemáticas, também ganhavam representatividade na poética investigativa de Tunga. Estes elementos, então, assumem dimensão performática, com papeis distintos dentro do cenário da obra instalativa. O pente, como na obra “Sem título”, age como elemento ordenador, que reúne os fios de cobre num movimento organizado, enquanto as asas e o biombo, de “Amber Chamber”, conclamam os enigmas do subconsciente, nossos medos e desejos.

 

“Sem título”, 1981

Fios e chapas de cobre

160 x 250 x 10 cm

 

“Amber Chamber”, 2006

Latão, aço, alumínio, resina epóxi, material elétrico, biombo

220 x 250 x 360 cm

 

“Vers La Voie Humide 2”, 2013

Ferro, cristal de rocha, vidro fundido, ferrite, cristais de quartzo

500 x 600 cm