Siron Franco

Siron Franco
31 de janeiro de 2019 Rafael Kamada

Gessiron Alves Franco – Goiás Venho, GO, 1947

Siron Franco é artista multimídia. Estuda essencialmente o homem e seus embates, seus fracassos e acertos, por meio de uma dramaticidade quase disforme. Demonstrou interesse pela pintura ainda jovem e no início da década de 1960 já ganhava algum dinheiro como retratista em Goiânia. Até que em 1967 a oportunidade o convidou a pintar o retrato da esposa¹ do então governador de Goiás, o militar Emílio Rodrigues Ribas Jr. A partir daí, outros trabalhos o levaram até a capital Brasília, onde retratou vários personagens e teve a guinada que precisava em sua carreira. Foi também neste mesmo ano que o artista foi selecionado para participar da II Bienal da Bahia, com três desenhos em nanquim. A Bienal sofreu com o Regime Militar, que foi fechada na abertura, tendo parte das obras destruída, incluindo dois de seus desenhos. Mesmo assim, o remanescente “Cavalo de Troia” (1967) ganhou o Prêmio de Aquisição na ocasião.

No final dos anos de 1960, Siron passou a produzir obras com temas sacros, o que o garantiu financeiramente por muitos e muitos anos e lhe rendeu certa liberdade para desenvolver paralelamente seu trabalho autoral. Logo mudou-se para São Paulo e se inseriu facilmente no meio artístico. Uma das suas séries mais icônicas, “Era das máquinas” (1970), foi realizada nessa época, quando também participou da mostra “Surrealismo e arte fantástica”, na Seta Galeria de Arte. Voltou para Goiânia em 1971, mas não parou com o trabalho, sendo então convidado a participar de vários projetos, abandonando de vez o realismo para adquirir um tom mais sinistro, com figuras isoladas e deformadas, utilizando uma paleta de cores escura, mais predominantemente marrom e vermelho. Ganhou o Prêmio Viagem através de sua participação no Salão Global Primavera, em Brasília e passou seis meses no México. Ganhou prêmios, participou de Bienais Nacionais e internacionais no Brasil. Em 1976, mudou-se para a Espanha, permanecendo até 1980.

A experiência na Europa direcionou o trabalho de Siron Franco para uma pesquisa focada na cor, pois sentiu as diferenças cromáticas entre as duas realidades, brasileira e europeia. Esse foi um período importante para o artista, que se consolidou como um dos principais pintores no Brasil. A série “Semelhantes” foi realizada nessa época do começo dos anos de 1980, cuja tela “Homenagem a Farnese” (1980) pertence, e demonstra justamente a combinação do tratamento cromático e do repertório imagético de Siron. “Homenagem a Farnese” traz referências óbvias ao artista Farnese de Andrade (1926-1996) quando faz uma alusão direta a um pensamento, fluxo de consciência, “encapsulado” numa redoma imaginária. Farnese era conhecido pelo tratamento intenso dado às suas obras/objetos, que retratavam suas experiências pessoais, alegrias e agonias, crenças e paradigmas. Ele produzia trabalhos que muitas vezes eram compostos por estátuas, bonecas e outros objetos inseridos em redomas de vidro e resina, representando o embate entre o irracional e o racional.

As 37 telas da série “Semelhantes” foram identificadas com títulos e números, sendo algumas somente com números, e foram expostas primeiramente no Museu de Arte de São Paulo – MASP, em novembro de 1980, representando um divisor de águas na carreira do pintor. A série ainda foi apresentada no Museu de Arte Moderna – MAM, de Salvador (BA). Em 1981, “Semelhantes” participou das Bienais de Medelín (Colômbia) e Valparaíso (Chile).

Siron Franco realizou ainda outra série de semelhante importância, “Césio – Rua 57” (1987), como uma crítica ao maior desastre radioativo já registrado na história mundial. Foram 23 telas sobre a fatalidade no bairro Popular, em Goiânia, onde viveu, pintadas com a própria terra local, bem como tinta automotiva. No momento, essa série pode ser vista na 33a Bienal de São Paulo. Curiosamente, Siron ainda foi o diretor do premiado documentário “Xingu” (1985), exibido na Bienal de Veneza, além do documentário “Pantanal” (1986). Mais recentemente, em 1997, ilustrou o livro infantil “Contos que valem por uma fábula”, de Katia Canton.

 

 

Referências:

SIRON Franco. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8771/siron-franco>. Acesso em: 14 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.

 

http://www.sironfranco.com/portu/historico3.htm

 

https://www.escritoriodearte.com/artista/siron-franco

 

http://www.bienal.org.br/post/5442

 

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¹Não foi possível encontrar informações sobre a esposa do então governador de Goiás, cuja existência possibilitou a obra. Durante a pesquisa, mesmo esse sendo um momento importante para a carreira do artista Siron Franco, o descaso não possibilitou sequer a simples menção de seu nome, infelizmente.