O tempo e a gravura no espaço

O tempo e a gravura no espaço
10 de dezembro de 2018 Stefânia Sangi

O tempo e a gravura no espaço

Sala Negra

Explicar o que é a gravura para uma criança pode ser bastante simples. A gravura seria aquele trabalho de arte gravado sobre uma superfície de madeira, metal ou tecido e, depois, impresso sobre papel, “existindo” de várias maneiras. Assim mesmo, no “gerundiês”, que se tornou a língua portuguesa na era computacional para dar a noção de continuidade do tempo e, portanto, a sua noção de atualidade e reprodutibilidade.

Criada não “desenhando” sobre o papel com uma caneta nanquim ou qualquer outro instrumento e sim, através de um processo direto de transferência da imagem “desenhada” sobre uma superfície que permite ser “texturizada”, gravada ou sulcada.

O artista começa gravando ou “desenhando” em uma outra superfície que não é o papel. A transferência ocorre quando a folha de papel colocada em contato com a superfície desenhada, ou melhor, gravada, é pressionada de maneira a passar a imagem, portanto, “desenhada”, naquela superfície geralmente dura, para a folha de papel, que por sua vez é leve e frágil.

Entre as muitas vantagens de se produzir  um trabalho de arte desta maneira, a principal é o número de “impressões” que podem ser feitas. O artista decide quantas vezes repetir o gesto e isso é entendido como a edição ou a reprodução em série. Finalmente, são assinadas e numeradas pelo autor podendo existir cópias, para que muitas pessoas possam ter um exemplar desta mesma gravura. A matriz seria então – depois do processo de impressão – descartada.

Depois de séculos da existência desse meio artístico, em outros continentes como forma de propagação de textos e imagens com fins de comunicação ou mesmo políticos, muitas dessas transformações foram incorporadas à linguagem, o que a torna muito mais complexa que a aparente simplecidade desse texto sobre o processo gráfico. Portanto, faz muito tempo que aquela forma de explicar a “estamparia” ou a gravura, tomou outro sentido e rumo diante das inovações da linguagem gráfica e dos processos de impressão e multiplicação da imagem ou da forma.

Sua efetivação no Brasil vai se dar em meados do século XX, depois que as correntes modernistas já tinham sido assimiladas entre nós, mais precisamente entre os anos 40 e 50. O que coincide também com a chegada de artistas estrangeiros fugidos da Segunda Guerra Mundial que aportaram no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Tais intelectuais e artistas trouxeram técnicas plásticas, sentidos e temáticos sociais que contribuíram para sua propagação.

Naquela época é criado um ateliê no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro e no MAM São Paulo, além de muitos outros ateliês livres que se espalharam pelo país. A linguagem se popularizou. E aqui deve ser reconhecido o trabalho do gravador austriáco Axel Leskoschek (1889-1975, visto nessa exposição), que atuou na iniciação da artista polonesa, naturalizada brasileira, Fayga Ostrower (1920-2001), que por sua vez, esteve à frente do ateliê do museu carioca e foi fundamental na disseminação da linguagem gráfica e na formação de artistas que frequentaram suas aulas no curso de Teoria da Arte que ministrou por 16 anos no MAM.

A paixão que a gravura provocou em artistas e colecionadores geralmente aficcionados pela técnica, e sua presença marcante na arte brasileira do século XX, tornou-se no mínimo peculiar diante do grau atingido de seu desenvolvimento como linguagem híbrida no final do mesmo século.

Para exemplificar a sua relevância, a nossa primeira participação importante na Bienal de Veneza, para confirmar esse interesse, foi em 1958, ocasião que Fayga Ostrower ganha o prêmio de gravura do evento, confirmando a dimensão da sua importância e a disseminação como meio ou linguagem tradicional. Não importa como a definíamos à época, com sua crescente popularidade nos dias atuais.

Depois de anos ou gerações de artistas, meio que “esquecidas” diante da sedução das possibilidades das novas mídias eletrônicas e digitais, é perceptível o interesse pela gravura renovando-se.

A linguagem, das mais abertas a hibridar-se com outras, como a fotografia, tem importante papel na disseminação da arte, no ativismo político e no colecionismo. Tanto que muitas coleções conhecidas começaram com um “singelo” exemplar delas. Entre nós, portanto, ela estaria contemplando duzentos anos como meio gráfico e menos de cem como atividade experimental artística. A linguagem gráfica é um campo artístico aberto às experimentações processuais, técnicas e conceituais da arte contemporânea no começo do século XXI. *

Gravar é um gesto silencioso em que se escuta apenas o atrito da ferramenta pontiguada que sulca como se  quisesse dissecar a matéria dura da madeira ou de uma chapa de metal. Como se desse gesto, o artista fosse extrair as vísceras da matéria, tornando essa matriz de gravura (xilo, metal ou lito), uma obra de arte em si, que guarda a força criativa desprendida sobre sua superficie, “esculpindo” figuras, formas e linhas.

A exposição “O Tempo e a Gravura no Espaço – Sala Negra”, apresenta a Coleção Guida e José Midlin de Matrizes de Gravura, recentemente adquirida pela Fundação Marcos Amaro.

Organizada pelo bibliófilo José Mindlin (1914-2010), que tinha paixão pelos livros, e sua esposa Guita (1916-2006), é uma coleção única que pode ser considerada a maior na sua natureza no país. O conjunto de 450 matrizes expressa o colecionismo engajado e preocupado do casal com a produção artística da época.

Essa coleção é o núcleo da exposição que reúne uma seleção de matrizes de xilogravura que mostra a dramaticidade do gesto de gravadores como Renina Katz (1925), Djanira (1914-1979), Mestre Noza (1897-s.l.1984), Oswaldo Goeldi (1895-1961), entre outros, desprendidos sobre a madeira. Depois de entintadas, restam como pedaços de madeira enegrecidos pela tinta e pelo tempo. Expostos agora em diálogo com trabalhos de outros artistas da coleção, buscam neste gesto da junção a sua contextualização política na atualidade.

Os trabalhos de Laura Lima (1971) e Rodrigo Andrade (1962), não são gravuras. A aproximação se dá pelo aspecto gráfico alcançado na escultura de Laura Lima e nas pinturas de Rodrigo Andrade.

As matrizes, ora lúgubres e, de certo modo, pesadas de sentidos, ora são apenas madeiras gravadas que agora são vistas como “esculturas”, ora são a ressonância estética ao grande passáro negro como a noite mais escura, destroçado no chão da sala expositiva. Como uma gravura impressa no próprio espaço expositivo.

Nuno Ramos (1960), faz uma homenagem ao Oswaldo Goeldi, ao gravar em baixo relevo sobre uma “lápide” de mármore branco uma imagem das suas xilogravuras banhada de oléo engrecido criando as sombras que caracteriam suas gravuras. Goeldi como Nuno Ramos são artistas que irradiam uma densidade literária que pode ser observada também nas pinturas de Rodrigo Andrade, nas gravuras de Wesley Duke Lee, na escultura de Laura Lima e Zé Carlos Garcia e Iberê Camargo, Siron Franco e Tunga, vistos em outra sala do circuito expositivo da Fábrica de Arte Marcos Amaro, da exposição O tridimensional na coleção Marcos Amaro: frente, fundo, em cima, embaixo, lados.

Criado por Laura Lima em co-autoria com o artista Zé Carlos Garcia (1973), o Pássaro (2015/2018) é uma escultura feita de penas negras que simulam um pássaro morto caído no chão. De alta dramaticidade, a ave compõe uma paisagem “viva” gravada em um canto dessa sala. A escultura fica entre as coisas vivas e mortas, tal a força e dramaticidade na sala expositiva.

Fantasmagórica, parece ter saído de uma das matrizes vistas na exposição. Feita de penas pretas, está inerte em um canto espalhando penas desprendidas pelo chão. O desenho das penas sobre penas cria um grafismo que lembra a textura de uma xilogravura, agora expandida no espaço.

É como se as asas tivessem sido cobertas por desenhos feitos de bastão de pastel oleoso, de maneira a criar camadas e camadas de tinta negra a darem corpo e forma de duas asas de um pássaro despedaçado no chão. Condição imaginária entre a vida e a morte, gerando curiosidade ficcional mórbida, provocando estranha fascinação.

As pinturas “gravadas” de densa camada de tinta sobre a tela  de Rodrigo Andrade, mais lembram as matrizes de xilogravura vistas na exposição, tal a sua espessura pastosa das camadas em que predomina o mesmo pretume da matriz de madeira entintada. Trata-se de gravar sem a necessidade de reprodução. Uma paisagem nevada, aparentemente desolada, como aquelas vistas pela Europa devastada entre as duas grandes guerras mundiais.

A outra tela é uma vista noturna de cidade à beira do mar ou à margem de um rio. Carrega a mesma atmosfera sombria, desolada e silenciosa, agora como vista urbana, mas tão devastadora como a que se vê na paisagem nevada.

Na seleção de matrizes destaca-se os conjuntos “esculpidos”  em madeira do Mestre Noza (1897-s.l.1984), artista pernambucano que viveu no Cariri, interior do Ceará e ficou conhecido pelas esculturas e ilustrações de cordéis que imprimiu.

Noza esculpiu e gravou sobre a madeira a Via Sacra, uma série de 15 gravuras, cuja primeira edição foi publicada em Paris, em 1965, pelo editor Robert Morel (1922-1990), com apresentação do artista cearense Sérvulo Esmeraldo (1929-2017). E também a série Vida de Lampião (ambas em exibição) e os Doze Apóstolos (1962). As matrizes guardam o gesto poético do artista de resolução gráfica simples, mas de impactante dramaticidade religiosa.

Renina Katz (1925) tem significativa representação na Coleção de Matrizes de Gravuras com suas primeiras gravuras com temática social, que poderiam ser situadas nos anos 40 e 50, em que retratou os flagelos da seca no nordeste brasileiro e o trabalho braçal nas suas diversas formas, no campo e na cidade. A artista consegue o máximo de expressão com economia de linhas e traços em suas matrizes.

A exposição O tempo e a gravura no espaço – Sala Negra joga luz sobre essa coleção de matrizes de gravura formada na “loucura mansa”** de José Midlin, um visionário apaixondado por arte e livros, que viu importância em preservar essas matrizes, que em outras circunstâncias seriam descartadas sem nenhum valor plástico. As matrizes que perderam sua função de meio de pré-produção, guardam antes de qualquer juizo crítico, a mão do artista. Expressam a força do gesto artístico nos traços gravados. Marcas de uma obra de arte repousadas no tempo, na memória desprendida pelas mãos dos gravadores.

 

 

Ricardo Resende
Curador da Fundação Marcos Amaro.

 


*  O conceito e as ideias apresentados neste texto partiram da leitura do texto “Sobre a gravura brasileira” escrito a duas mãos pelo mestre do mestre, os artistas e professores Evandro Carlos Jardim e Cláudio Mubarac. Texto publicado no catálogo da exposição itinerante “Gravadores Brasileiros Contemporâneos”, organizado pela galeria Casa da Gravura, de São Paulo, em agosto de 2007.

** A Loucura Mansa de José Mindlin é uma coletânea de textos, elaborada por Cristina Antunes e Nádia Batella Gotlib, e editado pela EDUSP, 2014.