Eu me levanto

Eu me levanto
6 de dezembro de 2018 Julia

Regina Parra apresenta projeto inédito na Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA)

Na exposição Eu me levanto, a artista investiga o erotismo e a vulnerabilidade como meios para criação de novas potências; Parra é a terceira artista contemplada pelo edital de ocupação da Fundação Marcos Amaro

Um corpo potente e lascivo e, ao mesmo tempo, vulnerável. O erotismo e a vulnerabilidade aqui são sinais de resistência. Uma estrutura capaz de superar limitações e transcender. Diante disto, a indagação: como transformar e adaptar esses movimentos? É o que a artista Regina Parra investiga em Eu me levanto, exposição que será apresentada a partir de 15 de dezembro na Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA) em Itu, no interior de São Paulo.

Concebida para o edital de ocupação da Fundação Marcos Amaro (FMA) e curada por Galciani Neves, a mostra empresta o título de um poema da escritora, poeta e ativista norte-americana Maya Angelou (Still I rise) e reúne trabalhos sobre um tema constante na pesquisa de Parra: o corpo feminino. A artista explora a vulnerabilidade do corpo como um meio para criação de novas potências. “É um corpo que escolhe se abrir ao invés de se blindar”, ela explica.

Regina Parra provoca através das dualidades. O corpo passivo e afogado de Ofélia – personagem de Shakespeare na obra Hamlet, uma figura nobre, frágil e doce – ressurge na série de pinturas de autorretratos Tenho medo que sim (2018), mas com gestos ambíguos que oscilam entre a devassidão e a sentença.

O retrato é um gênero da pintura que, tradicionalmente, destacava a representação de figuras públicas que detinham poder político, econômico ou social. Ao longo da história, os homens foram os mais registrados, enquanto era comum que as mulheres fossem retratadas com alusão às mitologias e à iconografia cristã. “Todas refletiam ideais restritivos de beleza que apagavam a subjetividade feminina”, diz Parra.

Não à toa, Ofélia, aqui sob a pele da artista, transcende as formas tradicionais de retratismo e é apresentada não mais como a frágil e dócil amante de Hamlet. Como um jogo erotizado, seus movimentos agora criam uma combinação de sensualidade e violência implícita.

A artista suscita um corpo com novas sensibilidades frente às intempéries políticas, culturais e afetivas da vida contemporânea. E é um corpo que, bem como no poema de Angelou, ainda se levanta.

Em Lasciva, série coreográfica inédita de sua direção em parceria com Bruno Levorin, Regina permeia questões que atravessam o erotismo, a sensação, a vulnerabilidade e a força, estabelecendo gestos, imagens e palavras produzidas na relação entre duas mulheres.

Na coreografia, Parra procura falar sobre o feminismo da atualidade e busca a distinção das palavras urgência de velocidade. É um convite para que o público reflita acerca das formas, estruturas e os usos implicados na performatividade dos gêneros. A apresentação de Lasciva acontecerá durante a abertura da mostra e será dividida em dois atos, com intervalo de 40 minutos entre cada um.

A exposição de Regina Parra é o terceiro projeto premiado pelo Edital de Ocupação da FAMA, promovido pela Fundação Marcos Amaro a fim de fomentar a produção artística contemporânea. Edith Derdyk e Eduardo Frota foram, nessa ordem, os primeiros contemplados pelo Edital.

Sobre a artista

Regina Parra (São Paulo, 1984) é mestre em Teoria e Crítica da Arte pela Faculdade Santa Marcelina e bacharel em Artes Plásticas pela FAAP. Nos últimos anos, apresentou individuais nas Galerias Millan e Leme, nos espaços Pivô, Centro Cultural São Paulo e no Paço das Artes, todos situados em São Paulo; na Fundação Joaquim Nabuco, de Pernambuco e na Galeria Effearte, em Milão.

Entre as coletivas que participou, destacam-se projetos como Sight and Sounds, no The Jewish Museum, em Nova York; FUSO – Festival Internacional de Videoarte, curado por Lisette Lagnado e Museu Nacional de Arte Antiga, ambos em Lisboa; OnCurating Project Space, em Zurique; Arquitetura e Paisagem Urbana, com curadoria Cauê Alves, no MuBE; Rumos Artes Visuais, com curadoria de Agnaldo Farias no Itaú Cultural, em São Paulo e Brasile. II coltello nella carne, no Padiglione D’arte Contemporânea (PAC), em Milão, com curadoria de Jacopo Crivelli.

Recebeu em 2006 o Prêmio da Anual de Artes da FAAP; em 2009, ganhou o Prêmio Destaque da Bolsa Iberê Camargo; em 2011, o I Prêmio Ateliê Aberto Videobrasil. Recebeu, ainda, o Prêmio de Videoarte da Fundação Joaquim Nabuco e foi indicada ao Prêmio de Artistas Emergentes da Fundação Cisneros, ambos em 2012. No ano de 2017, foi contemplada com o Prêmio de Residência Artística (Residency Unlimited/NY) da SP-Arte.

Em 2018, a artista ganhou destaque com É preciso continuar (2018), trabalho inédito que apresentou depois de selecionada pelo primeiro edital aberto da Mostra 3M. Instalada no centro do Largo da Batata, a obra trazia um grande luminoso em neon vermelho, exibindo um trecho inspirado no romance O inominável, escrito pelo irlandês Samuel Beckett no contexto do pós-Segunda Grande Guerra em 1953. Sua obra faz parte do acervo de instituições como Pinacoteca de São Paulo, Instituto Figueiredo Ferraz, VideoBrasil, entre outras.