Brasil na 57ª Bienal de Veneza

Brasil na 57ª Bienal de Veneza
12 de dezembro de 2017 Stefânia Sangi

Cinthia Marcelle cobriu o chão de grades. Manteve de propósito as paredes brancas, porque a tortura reside no asséptico. Deixou as grades de ferro ligeiramente inclinadas, para tornar difícil sua ascensão, porque a ascensão é muito difícil onde a guerra se transveste de outros nomes e tem particular apreço pela morte de minorias. Entre as grades, ela estrangulou pedras brancas, as mesmas que cobrem o lado externo da Bienal de Veneza. Símbolos da opressão de uma nação que naufraga e, ainda assim, aplaude o naufrágio.

O painel do Brasil na Bienal de Veneza, que aconteceu de 13 de maio até 26 de novembro, questionou o encarceramento, bem como as relações com o sagrado ou o que se pensa que é sagrado quando se fala de populações tradicionais. A instalação principal é a Chão de Caça, de Cinthia. Além de ocupar com grades empedradas o chão, ela também montou um vídeo sugerindo a rebelião de um presídio. Paus erguidos em riste no fim da instalação mostram tanto a impossibilidade de fuga de presos com seus panos torcidos como também as bandeiras erguidas na possibilidade de um naufrágio.

E se os brasileiros são íntimos de naufrágios, é porque eles estão alagados no cotidiano, evidentes na observação por mais pífia que seja do dia-a-dia. A mineira Cinthia Marcelle pode não ser tão reconhecida dentro do cenário nacional, mas fez seu declame dentro da Bienal quando pediu aos participantes que rasgassem o nome do presidente em exercício Michel Temer como um protesto político. Muitas das suas obras desterritorializam objetos mundanos na tentativa de convergir os pensamentos rotineiros e a necessidade de se abstrair deles.

Ernesto Neto também foi um dos representantes dentro da Bienal, e não esteve só. O artista mineiro, conhecido por suas esculturas moles e de alta interação com o público, teceu um tecido de espíritos e crochê no telhado da casa que abriga a Bienal. Em companhia dos huni kuin, população indígena do Acre, fez performances para evocar a jiboia, trazendo uma sabedoria florestal. Ainda que o momento tenha sido lúdico, não se pode ignorar a pele de tensão por trás da dança: O Brasil sofre um contínuo extermínio de sua população original, em meio a plantios de soja e cabeças de boi.

Ainda na delicadeza espiritual de luta para manutenção do sagrado no mundano, o artista convidado Ayrson Heráclito levou sua interpretação artística sobre os “sacudimentos”, rituais das religiões afro-brasileiras onde os espíritos de mortos, eguns, são levados de volta para sua casa astral.
Se o Brasil enfrenta épocas de duras repressões em todos os aspectos, é dentro da arte, nos questionamentos que ela pode gerar  – que existe um campo de batalha onde a luta ainda não definiu os vencedores.

Autoria: Cecília Garcia

Bibliografia 

Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza evoca nação fracassada, por Silas Martí

Circo artistas representam o Brasil na Bienal de Veneza, por Claudia Meireles

O tempo de Cinthia Marcelle, por Arte Versa

Ayrson Heráclito, um artista exorcista, por Vivian Mocellin