57ª Bienal de Veneza

57ª Bienal de Veneza
11 de dezembro de 2017 Stefânia Sangi

“Arte é o território máximo para reflexão, expressão individual, liberdade e para perguntas fundamentais”
Christine Macel

A curadora francesa Christine Macel apresenta a 57ª Bienal de Veneza, evento que aconteceu entre 13 de maio e 26 de novembro de 2017, como um refúgio. Em um contemporâneo marcado pelo choque, pela perspectiva iminente do conflito e desterro, e uma intensa e nunca finita procura de significado no que é habitar o planeta, a arte é o bastião da liberdade do pensamento. É onde os sonhos, medos, paixões e questionamentos se desenvolvem sem o espectro do conservadorismo. Seja em uma performance onde o corpo é questionado (na obra Fausto, da alemã Anne Imhof), seja objetos como toalhas ou livros transformados em delicadas construções japonesas (na obra Turned Upside Down, It’s a Forest de Takahiro Iwasaki), os pavilhões da Bienal são uns trasmundo que traduzem o mundo concreto.

E transpavilhões é como foram nomeados os espaços divididos na Bienal de Veneza; embora não houvesse divisórias entre eles, e que as transições entre as instalações fossem feitas de modo suave, os países ocupavam espaços delimitados, para desenvolver a poética de acordo com a temática escolhida por cada artista. As investigações falavam dos territórios, mas também do que flutua acima deles, como alegrias ou tristezas, ou também manifestações espirituais.

Fausto é o nome da instalação criada pela artista Anne Imhof para o espaço alemão, ganhador da Bienal deste ano. O pacto ao invés de ser com o demônio é com a objetificação do corpo: bailarinos se movem por uma estrutura transparente e laboratorial, onde migram de dançarinos atormentados para esculturas vivas, tudo sob o escrutínio de um público que a medida que interagia ou não com eles também entrava no jogo de consumir o jovem corpo, torná-lo um bem. É uma sensação de inquietude, ainda mais proveniente de um país que ainda lida nas artes com atrocidades de guerra.

No pavilhão dos Estados Unidos é no descascar das paredes que se faz a crítica ao conturbado período de conservadorismo político. O artista Mark Bradford, conhecido por suas pinturas de temática social, obriga o espectador a entrar pela porta de serviços, logo apresenta uma escultura-tumor, parente do mesmo organismo bizarro que toma uma réplica da arquitetura da Casa Branca. Ele também fala sobre violência sofrida pela população negra norte-americana: Em um vídeo, Melvin anda de um lado para o outro em um território sujeito a invisível porém opressora ameaça de ser abordado somente por sua cor.

Por fim há também otimismo e potência da criação humana acontecendo em tempo real. Em uma caverna de criação, o artista francês Xavier Veilhan convidou mais de 100 artistas a ocuparem espontaneamente um pavilhão de criação artística, onde poderiam gravar peças inéditas musicais. O espectador poderia se deparar com um espaço vazio – ainda que belo – ou com o privilégio de ver um pedaço musical nascer.

O nome da bienal Viva Arte Viva cai bem: é uma arte que se move com a força e agressividade de um tumor, mas que também ocupa territórios com a delicadeza de um canção fresca. É uma arte para questionamento, porque se não for, ela não cumpre a sua função social.