Campoamor
14 de novembro de 2017 Beatriz

Campoamor

  “No entanto, o conteúdo das experiências da infância e da juventude é o pano de fundo subconsciente de muitas grandes obras de arte. Todavia, para ser substância da arte, ele precisa ser transformado em um novo objeto através do veículo empregado, e não meramente sugerido à guisa de reminiscência”.

John Dewey, em Arte como experiência.

Odores, café, borra de café, xícaras, sabor, papel, nanquim, palavras, grãos de café, ancinho de madeira, fogo, ruídos, transparência, velar, apagamento e o pó do café, são partes da exposição campoamor. São os elementos da memória e experiências que a artista Raquel Fayad traz para a mostra na Fundação Marcos Amaro, na Sala de Exposições Rolim Amaro.

O café, um desses elementos a compor a obra, é a planta lendária que tem sua origem nas montanhas da antiga Abissínia, atual Etiópia, onde foi cultivado na província de Kaffa. O gesto de beber e servir, com o tempo, passou a ser cultural.

A sua borra, aquele restinho que fica no fundo da xícara, é a matéria pictórica plástica para a artista Raquel Fayad. Um exercício de colecionar guardanapos manchados por esta tinta de pigmentos naturais, que agindo sobre o papel adquire a coloração sépia. Memória e afeto são os elementos a compor esses desenhos.

É por meio da linguagem artística que se estrutura a apreensão das realidades exteriores e cria-se outra visão de mundo. Aguça a nossa percepção e nos dá outra ordenação das coisas. É com os elementos imateriais que a artista lida para fazer arte e construir outras realidades, nem sempre perceptíveis num primeiro olhar. Bebericar o café, é contemplar a vida, é aguçar a poesia, a inteligência e a disciplina interior.

Um gesto banal de repetição em que Raquel Fayad trabalha a escritura, a leveza do papel, a transparência, a repetição do gesto de coletar os desenhos da borra do café e, consequentemente, trabalha a temporalidade e as realidades suprassensíveis na forma de poesias visuais e do silêncio.

A exposição explora os ruídos dos grãos com o passar do rastelo (rodo). É o som seco, alongado, que se arrasta repetitivo, de algo que raspa a superfície da Terra, é o que se ouve ao adentrar a mostra.
Raquel Fayad convida para o silêncio e a pensar o lugar onde as linguagens artísticas não alcançam, elas apenas conduzem. O silêncio é o lugar do  conhecimento, que se dá quando se transcende a linguagem, justamente. Expressão verdadeira, como disse Le Breton, quem o faz é o público ao observar a obra de arte.

Ricardo Resende

 

Serviço:
18 de novembro a 16 de março de 2018
Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA)
Rua R. Padre Bartolomeu Tadei, 09 – Vila Sao Francisco, Itu – SP
Sala Rolim Amaro