Machina Mundi | Claudio Edinger

Machina Mundi | Claudio Edinger
29 de outubro de 2017 Beatriz Sant'Ana

A contemplação para além da contingência mundana

Claudio Edinger e o Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein

A história da filosofia é repleta de grandes obras, que legam ao futuro o pensamento de alguns dos nossos maiores gênios. O início do século XX presenciou o surgimento de uma dessas grandes obras, que permitiu ao jovem Ludwig Wittgenstein adentrar o panteão dos maiores pensadores de nossa cultura.

O Tractatus Logico-Philosophicus é uma obra tão enigmática quanto difícil. Este livro, publicado em 1921,  articula (com uma precisão ausente desde Spinoza) uma compreensão do mundo que sobrepõe lógica e misticismo, permitindo ao leitor, através da análise dos limites da lógica da linguagem, um acesso ao que há de mais elevado na forma de uma experiência indizível.

Uma maneira de apreender o pensamento inicial de Wittgenstein é através do entendimento da contraposição entre duas visões de mundo: o mundo do feliz e o do infeliz, em sentido ético. A compreensão dessa contraposição também nos permitirá o entendimento de como o novo trabalho fotográfico de Claudio Edinger poderá ser tomado como a exata expressão da estética e da ética do jovem Wittgenstein.

De acordo com o Tractatus, podemos olhar para o mundo atendo-nos aos seus fatos, que são contingentes. Este é o mundo do infeliz, em sentido ético, uma vez que direciona seus desejos e volições àquilo que, por ser contingente, não guarda em si nada de mais elevado. A angústia, o desespero e outras mazelas da vida terrena seriam frutos desse apego aos fatos.

O mundo do feliz, em sentido ético, por sua vez, é aquele no qual a visão intui os fatos pelo ponto de vista da eternidade (sub specie aeterni – em expressão latina usada por Wittgenstein). Esta é a visão do místico, que se eleva sobre toda e qualquer contingência. Para o místico, segundo o autor, não importa como o mundo é (ou quais fatos ocorrem), mas que haja um mundo (qualquer que seja) ao invés do nada. Esta é a visão do mundo como milagre, que dá acesso ao que é absolutamente valoroso.

Um elemento central do pensamento de Wittgenstein é que, a linguagem estaria limitada à descrição dos fatos. Podemos apenas dizer “as coisas estão assim” e os fatos que figuramos através da linguagem podem ocorrer ou não ocorrer (e disso resulta a verdade ou falsidade de nossas afirmações). Aquilo que é absolutamente valoroso estaria para fora da contingência dos fatos que compõem o mundo e, consequentemente, inacessível à linguagem.

Mas o inefável de algum modo se mostra aos olhos daquele que sabe calar sobre aquilo que não se pode falar (como nos indicam as famosas passagens que encerram o livro). A importância da arte reside no modo como pode voltar os olhos da alma para isso que se mostra, mas que não pode ser dito. A arte pode fazer isso, pois, segundo Wittgenstein, “ética e estética são uma só”. Ao nos dar acesso ao que é belo, a arte nos permite a apreensão daquilo que é absolutamente valoroso, para além dos limites da linguagem e de toda contingência mundana.

Em seu novo trabalho fotográfico, Claudio Edinger encarna o ideal tractariano e se eleva sobre os fatos cotidianos, para criar imagens do mundo sub specie aeterni. A literal adoção da perspectiva que metaforicamente atribuímos a deus permite ao fotógrafo tornar diminuto os contingentes fatos do mundo, que nos circundam. Prédios, ruas, carros, rodovias e construções se revelam quase insignificantes nesta perspectiva análoga à divina. Com isso, o fotógrafo descortina uma beleza inacessível aos nossos olhos que rastejam em meio aos objetos do mundo e desconstrói a relação que temos com o nosso cotidiano.

Claudio Edinger, ao deslocar a visão de seu plano próximo ao chão às alturas, subtrai os limites de nossos corpos e nos oferece uma etérea experiência do mundo, que aos poucos interdita a linguagem cotidiana.

Ao contemplarmos o mundo por sua perspectiva, perto, longe, aqui, ali, pequeno, grande e as demais relações que traçamos entre os objetos e nossos corpos deixam de ter uma exata aplicação. Aquilo que antes gigantesco agora pode ser visto como ínfimo. Aquilo que antes distante agora se revela em imediata conexão. Essa interdição da linguagem cotidiana nos remete a um silêncio contemplativo, no qual tudo que nos resta é uma interior interjeição de espanto. Em termos tractarianos, ao desconstruir as relações que temos com o mundo em nosso cotidiano, Claudio nos remete ao espanto da experiência do indizível.

A literal ascese realizada pelo fotógrafo traz consigo também uma profunda mudança na percepção do tempo. Na perspectiva cotidiana, o tempo flui como um furioso rio e ficamos presos às pequenas mudanças que ocorrem em seu interior. Não notamos que o próprio fluir do tempo se desenrola no interior de um eterno presente, no qual a distinção entre passado, presente e futuro se torna desnecessária. Não é sem razão que, segundo o Tractatus de Wittgenstein, viver eternamente é encontrar a eternidade no presente sem fim. É essa eternidade, do colapso entre tempo e atemporalidade, que se faz visível também na contemplação das sublimes fotos aéreas do artista.

Esse elemento contemplativo introduz uma dimensão que conecta suas obras à sua biografia de uma maneira sutil. Muitas foram as vezes que Claudio andou entre os místicos do Oriente. O interesse pelo misticismo transparece especialmente em seus trabalhos realizados na Índia e em sua obra literária. A diferença introduzida pelas suas novas fotografias é que nelas o misticismo não se manifesta no conteúdo retratado, mas na forma. Os fatos retratados podem até ter o mesmo conteúdo de muitas de suas fotos anteriores (prédios, ruas, paisagens etc.). E em muitas delas reconhecemos os mesmos objetos que vemos em nosso cotidiano. Mas seu olhar agora tem um alcance sobre-humano e observa esses mesmo fatos de forma distinta. É na adoção da perspectiva sub specie aeterni que o misticismo agora reside em seu trabalho.

Este é outro ponto de aproximação entre Claudio Edinger e o jovem Wittgenstein. De acordo com a ética do Tractatus, os fatos do mundo do feliz e do infeliz podem ser exatamente os mesmos. A diferença se encontra na perspectiva que é adotada em relação aos fatos. O infeliz atém-se aos fatos, enquanto o feliz contempla o milagre da existência do mundo, no qual esses fatos ocorrem. É essa infelicidade cotidiana que se dissolve diante das novas fotos do artista, uma vez que dão àquele que as contempla a atemporal experiência do sublime. Nelas podemos ver o nosso mundo sob uma nova perspectiva e de tal modo que nossa ordinária linguagem se cala. Com isso, a estética construída por Claudio abre caminho para uma ética da contemplação, que nos remete à felicidade de Wittgenstein, da apreensão do mundo como milagre.

 

Guilherme Ghisoni