Dualidade e leveza: a Arte no Japão

Dualidade e leveza: a Arte no Japão
17 de julho de 2017 Stefânia Sangi

“No momento em que, ainda que não compreendemos completamente o que capturamos, e ainda assim somos tocados por isso, é o que chamamos de arte”.

Takashi Murakami

 

É a única árvore musical, das folhas que parecem brincos tímidos; a harmonia está tanto nos caules que se estendem marrons, eretos, feitos para que ar possa passar por eles, quanto no vento externo, dobrando-a e vergando-a até o ponto da exaustão, mas nunca quebrando. É a matéria-prima que sustenta o shoji, delicada porta usada na arquitetura japonesa, suave e suscetível à luz. Quando Junichiro Tanizaki escreveu Elogio da Sombra, investigando a razão pela qual arte e cultura japonesa se baseia em dicotomias como escuridão e claridade, força e delicadeza, ele também pensou no bambu.

A definição da arte de qualquer país, sobretudo vinda forasteira, sempre será uma definição de superfície. Há algumas características das artes do Japão, influenciadas pelos países que o rodeiam, como a China e a Coreia, que soam estranhas aos preceitos da arte ocidental; o grotesco está tanto nos filmes de terror como nas pinturas fantasmagóricas. Há o Mono no Aware, de difícil definição verbal; é mais fácil percebê-lo enquanto manifestação na natureza, aceitação de que objetos e animais tem alma e inspiram simpatia. Há o wabi, a elegância silenciosa. Há tudo que não se compreende e se que chocou com o Ocidente quando no século XIV a Europa navegou tsunamis.


Yayoi Kusama, All The Eternal Love I Have for Pumpkins, 2016

 

A arte japonesa contemporânea é feita de hipérboles. A hipérbole da bola; do excesso de bolas, uma catapora artística, como a produzida por Yayoi Kusama. É através da circunferência que a artista captura seu próprio infinito. Os padrões exagerados, as cores fortes como amarelo e vermelho, podem parecer desafiar uma pretensa elegância oriental, mas quando colocadas em repetição, o padrão também se assemelha a equilibrada estampa dos quimonos japoneses. Há na obsessão de Yayoi, que não poupa cavalo, carro, a si própria, algo de artesão talhando uma espada perfeita.


Masao Yamamoto, 1319, from Nakazora, 2016

 

Do outro lado, a líquida sobriedade, despejada como saquê. O fotógrafo Masao Yamamoto é um Bashô dos tempos modernos e seus haikai tem o tempo do espaço entre a fotografia de uma pétala de flor ou o topo das orelhas de um cervo na neve. Em suas leitosas composições, onde corpos nus flutuam, Yamamoto está interessado no que há todo tempo aparece, quando se tira uma roupa ou se olha para um buquê de árvores. Nesse creme fotográfico, ele aceita o inevitável; que o eterno é um conceito impossível de ser alcançado, e que existe beleza no que é feito para ser quebrado ou morrer.


Chiharu Shiota, The Key in the Hand, 2015

 

No campo da escultura, Chiharu Shiota fala do humano sem nunca evocar sua figura; ele está preso em pequenos fragmentos de pele e medula nos objetos que escolhe adotar para montar suas obras. Chaves, sapatos, camas, barcos, são uma indumentária do sonhar, aspiração, desejo de ir para algum lugar. Em uma de suas obras, The Key in the Hand, uma fina cortina vermelha se estende carregando pequenas chaves, que ela coletou ao redor do mundo; para ela, a chave personifica o corpo humano, e sua cabeça grande repleta de desejos.


Takashi Murakami, The 500 Arhats, 2012 

Takashi Murakami é o artista contemporâneo mais conhecido; ele ocupou 15 salões nos palácios de Versalhes com sua arte puku, que é uma mistura e fina linha entre arte e produtos da cultura japonesa como o mangá ou toy art. Ele parece muito distante do bambu, quando carimba sua criações ou toma de assalto bolsas Louis Vuitton; mas a arte do Japão não pode ser definida somente entre dualidades, entre a cor de Murakami e a ausência de Masamoto – há algo no meio, uma fina poeira, um delicado espírito que coça os olhos e o nariz, mas complexo de qualificar.

Murakami o diz que é porque a arte é a busca das pessoas pelo futuro; mas acredito que a arte do Japão ainda tem os dois pés bem no passado, aproveitando-se disso para fazer uma simbiose entre coisas que no Ocidente, coexistem com dificuldade, e no Oriente, estão em todo lugar.

Autora: Cecília Garcia

Bibliografia

The Primacy of Matter: Chiharu Shiota, escrito por Susan Acret.

A Influência da Arte Japonesa na Representação da Especialidade Impressionista, por Maria Aparecida Cordeiro Katsuyarama

Ten Great Japanese Photographers you should follow, por Christopher Smail

Japão: A Peculiaridade de sua Cultura, Arte e Moda, por Ana Paula Souza Camargo

Arte e Natureza no Budismo Japonês, por Tiago Mesquita Carvalho

Fronteira e Diálogo na Arte Japonesa, por Michiko Okano

Masao Yamamoto: La récondita poética de lo imperfecto, de Rebeca Pardo