Der Stürmer e a incitação ao ódio e à violência

Der Stürmer e a incitação ao ódio e à violência
20 de junho de 2017 Stefânia Sangi

“Os judeus são a nossa desgraça” (Die Juden sind unser Unglück!), diz o lema na parte inferior da página de rosto do exemplar de Der Stürmer  (“O Atacante”), datado de junho de 1939,  pertencente ao acervo da FMA. O lema fora cunhado na década de 1880 pelo historiador nacionalista alemão e publicista político Heinrich von Treitschke. Na parte superior, logo abaixo do título vem o lema Deutsches Wochenblatt zum Kampfe um die Wahrheit (“Jornal semanal alemão na luta pela verdade”).

O jornal antissemita fundado em 1923, componente significativo da máquina de propaganda nazista, circulou semanalmente na Alemanha de 1923 até o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Enquanto o jornal oficial do partido nazista (NSDAP),  Völkischer Beobachter (“Observador do Povo”), mantinha aparência de seriedade e compostura, o Der Stürmer publicava material obsceno, propaganda de pornografia e acusações contra judeus, católicos, comunistas e monarquistas para conquistar um amplo público leitor nas camadas mais pobres da população.

Der Stürmer, junho de 1939

Suas caricaturas retratavam judeus como personagens feios, corpos deformados e características faciais exageradas visando à desumanização e a demonização dos retratados. A maioria destes desenhos foi executada por Philipp Rupprecht, conhecido pelo apelido “Fips”, um dos mais conhecidos caricaturistas antissemitas do Terceiro Reich.

Cada edição do jornal tinha as suas páginas expostas em painéis colocados em vias públicas movimentadas, uma estratégia eficiente para atrair leitores, particularmente jovens e pessoas que não tinham tempo ou dinheiro para comprar e ler um jornal diário em profundidade.

Em 1927 eram distribuídas 27.000 cópias por semana de Der Stürmer, e já em 1935 a circulação havia aumentado para 480.000 exemplares. Em 1938 atingiria o seu ponto alto em ternos de circulação. Der Stürmer também tinha leitores entre a população de origem germânica na Argentina, Brasil, Canadá e Estados Unidos.

Antes da chegada dos nazistas ao poder o jornal enfrentou processos judiciais e no período de 1923 a 1933 teve diversas edições banidas e retiradas de circulação. Der Stürmer enfrentou também a fúria de alguns nazistas poderosos como o Reich Marechal Hermann Göring e Baldur von Schirach, que proibiram-no em suas áreas de atuação. Por outro lado, recebeu endosso de altos líderes como Heinrich Himmler, Robert Ley, Max Amann e Albert Foster.  O próprio Hitler considerava os “métodos primitivos” do fundador e editor de Der Stürmer, Julius Streicher (1885-1946), como eficazes para influenciar “o homem da rua”. Em fevereiro de 1942 elogiou-o publicamente ao declarar: “Nunca se deve esquecer os serviços prestados pelo Stürmer”.

Nascido na cidade bávara de Fleinhausen, perto de Augusburg, Streicher começara a sua carreira como professor de escola primária. Terminada a Primeira Guerra Mundial, ligou-se a associações ultranacionalistas e a publicações antissemitas virulentas.  Criou a editora Stürmer – Verlag, que produziu entre outras obras uma série de literatura infantil e o infame Der Giftpilz (“O Cogumelo Venenoso”), peça de propaganda insidiosa, que enumerava nefastas armadilhas armadas por judeus  usando a metáfora de um cogumelo atraente, mas mortífero. Em 1937, por ocasião do encontro de Hitler e Mussolini, Streicher organizou uma exposição fotográfica com o propósito de denunciar os males do comunismo e a sua perigosa conexão com os judeus.

Julius Streicher (1885-1946)

Ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial Streicher regularmente aprovava a publicação em Der Stürmer  de artigos incitando a aniquilação e o extermínio da raça judaica. Em maio de 1945 ele seria capturado por forças do EUA e entregue ao Tribunal de Guerra. Por seu papel influente na incitação ao ódio e à violência foi condenado por crime contra a humanidade no Tribunal Militar Internacional de Nuremberg (IMT) e executado por enforcamento em 16 de Outubro de 1946. As suas últimas palavras, gritadas pouco antes da sua execução foram “Heil Hitler”.

Autor: Jonas Soares de Souza