Arte e Desterro

Arte e Desterro
27 de maio de 2017 Rafael Kamada

“Da minha praia, para outra praia rarefeita, eu sou uma nômade de zonas fronteiriças, tecelã de sonhos passados, que se desdobram na história”.

Patricia Ruyz Bayón

 

 

Quando convidado para falar sobre literatura e exílio em um congresso em Viena, o escritor Roberto Bolaño viu-se incomodado; o chileno carregava sentimentos controversos sobre que relações são estabelecidas entre a arte e imigração – seja ela desejosa busca por novos ares, ou forçada, a ditadura, os genocídios, a escravidão. Em seu discurso, o escritor foi claro – cada artista é sua pequena nação, cada biblioteca seu país, e ele se faz das experiências impregnadas como tatuagem do lugar onde nasceu, que habita, utopias e mundos imaginários onde gostaria de estar. A produção intelectual das diásporas nasce desse liquidificador, portanto é dor, intensidade e saudade.

Tomie Ohtake

Poucos povos entendem do pó da saudade como o palestino; sujeitos um interminável fogo cruzado, monstros de tanques e muros comendo o país pelas beiradas, os artistas palestinos falam de sua terra como se bebessem a seiva das oliveiras. O poeta Mahmoud Darwish descreve no seu poema Forgotten As If You Never Were, como o sentimento da perda da nação fosse a morte violenta de um pássaro, gigante para lesmas e formigas, mas não notada pelo mundo. Já o artista palestino Majd Abdel Hamid borda o óbito – em cores pop, ele reproduz cenas de violência tanto de sua terra natal quanto da Síria, para falar em costura da impotência e banalização da violência – homens alvejados no chão, homens se jogando de prédios.

Majd Abdel

“As nações são comunidades imaginadas”, escreveu o sociólogo Stuart Hall sobre os movimentos de diáspora negra. Artistas do continente africano exploram a herança de uma movimentação compulsória e da remodelagem de suas raízes por processos coloniais. A escultora norte-americana Renée Stout visceralmente fala do nascimento e ancestralidade em uma nação de sistemáticos apagamentos, produzindo em esculturas os vestígios do passado dela própria e da população que compartilha seus passos.

 

Renée Stout

A escultora Patricia Ruyz Bayón decidiu que a topografia limítrofe entre México e Estados Unidos também seria a fronteira da sua arte. Num acirramento nunca antes visto entre os dois países, faz sentindo que um dorso esculpido a mão carregue a bandeiras vermelha e azul, o símbolo da opressão, as estrelas que não iluminam nada. Nem só de Frida e caveiras simbólicas vive o México, nem só de cercas brancas e hamburguês o outro lado do muro. Quando a artista fala dos dois lugares que habita, é para marretar os estereótipos e enterrá-los.

Patricia Ruyz Bayón 

Nem sempre a migração vem do lugar da dor, embora qualquer ruptura inevitavelmente provoque uma ferida, o caqui balançando na caixa de feira, ou a artista japonesa que menina balançava dentro de um navio. Quando Tomie Ohtake chegou no Brasil, sentiu cheiro de amarelo. Sua produção artística e centenária andou em uma linha tênue entre cores descobertas no novo lar e a tradição rarefeita da pintura oriental, que nunca teve pressa, camada por camada, curiosidade pela tela, pelo o que pode conter a simplicidade de uma palheta única.

Tomei Ohtake

 

Ainda parafraseando Bolaño, esse defensor das não fronteiras, dos espaços mais de derme do que qualquer topografia desenhada em papel, quando se fala do desterro e exílio, se fala das fronteiras dos sonhos, das trêmulas do amor e do desamor, as do medo, as douradas da ética. Em um contemporâneo de dizimação, onde migrar é um processo de botes salva-vidas laranjas boiando na água, os artistas que tratam da imigração são a barricada, uma investigação profunda da geografia inventada pelo homem, barrados em montanhas moradoras de pessoas, rios que desaguam na água de suas tristezas, em limites que se expandem apaixonadamente quando alguém resolve pintar, esculpir ou simplesmente pensar o desterro.

 

Autoria: Cecília Garcia

 

 

Bibliografia

Discurso Literatura e Exílio, discurso de Roberto Bolaño e tradução de Guilherme Freitas

Matéria sobre Mahmoud Darwish no jornal The Guardian

Artistas retratam realidade da política de imigração entre México e Estados Unidos no jornal ZH Entretenimento.

Tomie Ohtake: mulher, artista e imigrante no Museu da Imigração.

Folder da exposição Migrações, do fotógrafo Marcelo Brodsky.

O artista palestino que borda imagens da violência e do horror na Síria, da jornalista Amira Asad

Imigração e Arte: o acúmulo de documentos e objetos como forma de construção de si, de Patricia Reinheimer.

Da Diáspora, de Stuart Hall.

Olhares de África: lugares e entre-lugares da arte na diáspora, de Ilka Boaventura Leite.

Renée Stout Can’t Breath, pela própria autora.

Folder da exposição Renée – Tales of the Conjure Woman.