A política na obra de Francisco Klinger

A política na obra de Francisco Klinger
16 de maio de 2017 Rafael Kamada

O escultor Francisco Klinger Carvalho sempre usou a perda como matéria-prima; a perda da terra, pátria que se abandona simbólica e fisicamente; a perda da significação dos materiais, da árvore que vira madeira, do plástico que se molda ao fogo; e por fim, da perda voluntária que é a escolha de se trabalhar com o abstrato, fixando-o entre as tantas fronteiras que compõe sua obra. O escultor que nasceu no Pará e hoje trabalha na Alemanha cria suas obras com materiais paradoxais entre suas distintas realidades, dialogando com abismos que habitam seu próprio cotidiano e que também traduzem a difícil condição humana do pertencimento, ainda mais em um pós-modernidade em chamas.


Da Ordem ao Caos

E é da distância do mar e do fogo que o atravessa que Francisco observou seu país queimar. O caos das instituições brasileiras, ruídas para o escultor desde o momento da destituição da presidente Dilma Roussef, se enrolaram como cobras nas obras já sempre muito críticas. Para um homem que está longe de sua pátria, é mais fácil reconhecê-las, tirá-la de possíveis encantos de quanto se está com pé plantado e parcial no chão. O sentimento de incompreensão, que é dele e de todos, inspirou a criação da série Da Ordem ao Caos.


A Carniça Está Pronta para Ser Comida

A impossibilidade da carne que corta o concreto como se ele fosse feito de manteiga é a metáfora da realidade; para Francisco, é como se o Brasil estivesse virado ao contrário, o desconcerto de quando se abotoa uma camiseta e se percebe os botões fora do lugar. Uma das obras emblemáticas do conjunto é a de um mapa do Brasil virado ao avesso, pintado de preto, lacrado em si mesmo e na impossibilidade de um retorno. Há uma crítica ao narcisismo de instituições que detém o poder e que manejam os rumos políticos e institucionais do país.


Infeliz Acidente

A figura da grade, diluída em sua obra geralmente em madeira, se materializa na potência de metal. Para falar do massacre em um presídio – o próprio presídio materialização de um sistema criminal falho – o artista pega um pedaço abjeto e gordo de carne e o encerra em uma prisão, redimensionamento da crueldade. As grades também funcionam como símbolo de luto, de uma bandeira negra que pende e não encontra alento, as veias abertas e também escuras da América Latina e do Brasil, parafraseando um Galeano que nunca fez tanto sentido.


Contraste: A Tempestade Paira sobre a Arrogância de Narciso

Exposta até o começo de maio na Galeria Andrea Rehder com o nome Metáfora sobre uma Terra Perdida, as obras de Francisco Klinger são a materialização de uma inquietação que não pertence somente ao artista; há um senso de ansiedade, mas também calma ao se deparar com obras que traduzem em grade, ferro, concreto, carne e faca os incômodos de um futuro que se desenha incerto, tão incerto como as trêmulas fronteiras que o artista sempre trabalhou em sua produção.

 

Autora: Cecília Garcia