Impressionismo

Impressionismo
12 de maio de 2017 Rafael Kamada

“As cores são minha obsessão, meu divertimento e meu tormento todos os dias”.
Claude Monet

Como o entomólogo que com finas redes e delicadeza se dedica a captura de insetos, os artistas do movimento impressionista eram afoitos pela luz. Não a perceberiam dentro de obscuros quartos, onde raios de sol ou lamparinas atravessam em insuficientes feixes a imaginação de quem quer pintar. Era preciso ir para os quintais, abandonar a precisão do pincel, render-se a insanidade de pitadas laranja, azul e violeta. Foram homens e mulheres que romperam com a tradição, embora permanecessem cativos da obsessão pela claridade ou o jogo visual que faz a falta dela.

Berthe Morisot

O nome do movimento que transformou o cenário artístico no século XIX veio de um comentário sarcástico. Artistas como Claude Monet, Edgar Degas e Auguste Renoir se juntaram em exposição para mostrar uma nova maneira de pintar: libertos da fidelidade com a realidade pela popularização da fotografia, experimentavam a fuga da nitidez. Suas paisagens eram pintadas ao ar livre, e modificavam-se à medida que a luz transcorria. O espectador que sentia a intimidade com a palheta de cores e as combinava puxando da memória afetiva a cartografia desenhada pela luminosidade.

Claude Monet

Ante peculiares pinceladas e um descompromisso com contornos, os críticos de arte embasbacaram-se; nada parecido fazia parte do cenário realista adotado até então pela maioria dos pintores franceses. O crítico Louis Leroy comentou com descaso: “Isso é mero impressionismo!”. Ao invés de ofendidos, os artistas adotaram a alcunha. Saíram as ruas, cavaletes montados na beira do Rio Sena e chapéu sob os olhos para se proteger e também se inebriar pelo céu.

Claude Monet

Se não havia enlace com a representação realista, olhos órgãos facilmente enganáveis, havia com a natureza. Claude Monet por muito foi um homem como um quadro debaixo dos braços, sem ter para onde vendê-lo, atravessando abóbodas do desprezo de marchands que não entendiam sua pintura. Ela demandava um afastamento do corpo, um aperto das pálpebras, para compreender a devoção de Monet a abertura sensual de uma vitória-régia, o modo como se curva a ponte japonesa, a cidade tomada de assalto pela luz quase incendiária do poente. Monet não se dobrou a crítica, hoje a crítica curva-se a ele, seus quadros pérolas para colecionistas.

Edgar Degas

Há uma bailarina, o público pega fogo. A dança nunca pertenceu à realidade, porque vive sob camadas de músculos e peles distendidas, do sangue acumulado no dedão da esforçada dançarina. Edgar Degas não tinha os pés no impressionismo; um deles era pousado no Realismo, mas havia já um quê de não conformar-se com a realidade; quer mais melancólico que a mulher fitando inconformada a garrafa de absinto depois de senti-lo descer uma chama verde dentro da garganta. Era um pintor solitário e visceral, que entendia o efeito que tinha a luz quando avançava por uma janela e clareava músculos tesos em plié, cabelos em fita, o rosto desprevenido, mas nunca pintado acidentalmente.

Edgar Degas

Em um grupo de homens pioneiros, Berthe Morisot vivia sua pintura. Foi a primeira mulher a juntar-se ao movimento impressionista, expondo também na mostra que os tornaria conhecidos. Morisot era, mais do que encantada pelos efeitos da luz, uma apaixonada pela pouco contada história da mulher na França. Em quadros luminosos e de paisagens onde há sempre grama e cotovelos, a artista falava sobre as camponesas, as mulheres de salão, a multiplicidade feminina de personagens que mais do que simplesmente esposas de outrem – ela própria sempre muito associada a figura de Eugène Manet, seu marido – são interessadas em cultura e desejam ser reconhecidas pela ousadia de sua pintura.

Claude Monet

O grupo dos impressionistas dissolveu-se rápido como foi criado, em 1886, assim como o Sol que sabe de seu poente breve e desaparece até se tornar um rastro dourado entre nuvens. Mas lançou nos movimentos artísticos um desafio pouco pensado até então; as artes não precisam ser necessariamente representações pictóricas da realidade. É na imaginação onde reside o material de que são feitos sonhos e pinturas revolucionárias.

Autora: Cecília Garcia

Bibliografia

Artigo sobre Impressionismo no website História da Arte.

Artigo O que foi o Impressionismo?, no site Mundo Estranho.

PDF Práticas e Reflexões com Educadores sobre o Impressionismo, do Centro Cultural Banco do Brasil.

Artigo Impressionismo: 230 anos de luz, por Luciene Zanchetta.

Livro Claude Monet and his Paintings, de William H. Fuller.

Livro Degas, de Bernd Growe.

Reportagem La Pintora Impresionista Berthe Morisot, por Araceli del Moral.