Farnese: caixa pulmão barroco sangue

Farnese: caixa pulmão barroco sangue
7 de dezembro de 2016 Zwei Arts

Anatomia do corpo de Farnese de Andrade, o fazedor de oratórios de difícil alegria:

Uma caixa, sempre uma caixa, habitada pela morte.
Um pulmão grotesco lotado de sangue, refém da tosse invencível.
O lixo, o da praia e praça, o ‘arredondado e gasto’ pelo suor do toque.
O que mais dá medo ao homem: o útero, a vagina, a mãe, o fim.

Farnese esculpia, tossia, escorria o sangue, o invisível, o sangue da recolha, criava caixas porque cada homem e mulher mantém uma áspera semelhança com bonecas russas. Dentro existe o dentro e o insuportável de, cada vez que se abre a porta da caixa, se percebe estar dentro de outra, a da religião, ao do medo do fim e de não escolher o começo. De não ser um artista de sua época, já encerrado na caixa do futuro.

Nove meses de geração são o hotel mais caro do mundo e se paga por isso pelo resto da sua vida.”

Farnese nasce de dois úteros: o indesejável, o boneco intruso, de um pai e mãe que não compreenderiam o valor de sua sensibilidade e de seu apreço por invólucros, menos um, o materno. O outro útero é a cidade de Araguari, em Minas Gerais, um útero barroco, onde outros mestres como Aleijadinho experimentaram a temperança de esculpir pelo sofrimento. É arrastado pelos sentimentos de caixões, as sempre caixas, de seus irmãos, de seus pais, da morte. Quando começa a pintar, despreza a teoria. Quer falar de seus demônios e suas obsessões, do corpo caixa, em nus que não parecem naturais, o corpo sensualizado e arrebatado pelo confinamento.

Arqueólogo do futuro, será que nasceu no tempo errado, ou não há tempo para quem fala da morte?

Suas instalações evitam os cantos onde pode nascer a aranha, o oco onde pode haver espaço para o medo. No confronto contra o vazio, que se expande não só material como mentalmente, Farnese começa a pesquisar o resíduo do mundo. No mar que devolve tudo enojado e na praça que cospe lata, o artista encontra o orgânico para sua matéria. Há muito da boneca em suas obras. Isso pode ser explicado por uma infância horrível, da qual nunca se recuperou. A boneca simboliza esse arco temporal, mas também, o limiar entre o que nunca se mexe e o que remete ao que se mexe com muita força, um símbolo do terror. Quem olha as obras de Farnese enfrenta primeiro o modo de olhos que encaram de volta.

Carga Genética, 1985

Havia uma prática assustadora dos tempos antigos que era de fotografar mortos. Há a prática comum do presente, que é guardar fotos dos entes queridos que já se foram, esse pedaço de DNA feito em luz e papel. Na obra Carga Genética, Farnese se divide em duas portas: a do carinho, a que menos range, porque aqueles corpos carregam de algum modo a existência do seu. A da outra porta, menos carinhosa, é a dos anjos, que ao invés de darem um sentimento doce quando talhados, tem uma carga de assustadora vivacidade, talvez os fetos, anjos que não se desenvolveram. Numa caixa cabe muito bem amor e ódio.

Grécia, 1980

A história do mundo é a história repleta de maldade. Farnese abraça-a como se ela estivesse com saudade ou distante, ainda que perigosa, tão perigosamente perto, a distância de uma concha. Zeus foi muito cruel e machista quando deflorou uma centena de mulheres para que gerar semideuses que também não conseguiam fugir da tristeza. Vários monstros morreram porque Hércules assim escolheu, os renegando como vilões nas lendas. O artista mineiro recria uma protopaisagem com elementos de uma narrativa tecida a base da imaginação vermelha. Um tronco, um pedaço do mar, uma gamela de madeira, um útero que embala a alegria difícil do mundo.

O que aconteceu com os bonecos descabelados?

A linha temporal nem sempre é justa com quem bamba nela. Farnese e suas obras cheias de afeto, tristeza e terror tinham pouca espaço para um cenário artístico onde o pictórico ainda não havia acontecido, o abstrata tinha pouco valor, e era necessário compreender integralmente uma escultura, e não o que ela representava. Farnese era de um panteão do futuro: podia facilmente ter fumado um cigarro com Hélio Oiticica ou se ocupado com as mãos de Lygia Clark, talvez até ter dividido suas angústias de uma infância com o doce Leonilson ou o que também materializava em dor Nazareno em suas esculturas. Mas viveu foi no tempo da tosse e morreu dela.

Gostava de resíduos, deixou muitos: obras que dizem de uma alma inquieta que nunca se conformou com as caixas, desafiando-a com o suor das mãos e a opacidade dos olhos de uma surrada boneca.


Autora: Cecília Garcia
Esse texto não seria possível sem os estudos de Rodrigo Naves e Helouise Costa.
07/12/2016